Dois temas quentes

1) A derrota do Benfica no Funchal era previsível. O vendaval que se lhe seguiu também. Não vou bater no ceguinho; vou antes dizer o que gostava que acontecesse agora: o presidente do Benfica vinha a público dar toda a confiança ao treinador; depois, ia ao balneário lembrar aos jogadores que a motivação deles é o gordo cheque que recebem no fim do mês; o mesmo dirigente re-instituía de imediato Oscar Cardozo e obrigava o treinador, que é um mero funcionário do clube, a reconciliar-se com o goleador; e, de caminho, retirava o ridículo apoio a Fernando Gomes ( que, desde que chegou à Liga primeiro e à Federação depois, apenas viu o seu adorado Porto perder um único jogo, cujo árbitro foi convenientemente saneado) e chamar a atenção nãoo apenas para o penalti que Jorge Sousa escamoteou como para os vergonhosos incidentes de Setúbal (ao falar destas coisa, o presidente do Benfica contrariava a impressão de que anda a dormir). Nada disto acontecerá,  e nos entretantos o que se vê é os abutres, vermelhos e de outras cores, a afiar as facas cheios de gula. O presidente encontra-se em parte incerta, como costuma acontecer quando as coisas estão difíceis.

2) Judite de Sousa teria feito bem em ter questionado internamente o valor informativo e o cabimento deontológico da entrevista com aquele indivíduo e até poderia te-lo questionado, embora com um pouco mais de educação, acerca do potencial de ofensa no seu estilo de vida em tempos de crise. Não poderia era ter feito o que fez sem que o resultado fosse este: a entrevistadora parecia uma fanática em busca de sangue e o entrevistado um jovem ponderado violentamente atacado por uma jornalista. Finalmente, duas perguntas para a pivot da TVI: i) fosse o entrevistado um Ulrich, um Belmiro ou um Dias Loureiro, teria atacado com a mesma força? ii) quem almoça com um magnata da tv, um ministro com tendências controladoras da imprensa e um dirigente desportivo de perfil sobejamente conhecido tem moral para criticar seja o que for? (quem pergunta isto não é o adepto benfiquista mas o ex-jornalista que, se se tem metido em almoçaradas, se calhar ainda o era).

Urbano

Nunca o conheci. Nunca tive aulas com ele, nunca o ouvi discorrer sobre nada nem sequer li algum livro dele. Mas lembro-me de uma vez estar a entrar na Faculdade de Letras e vê-lo, já idoso e mirrado, no átrio, com o ar sonhador de quem relembrava memórias passadas. Foi esse o único momento em que me senti realmente aluno da Faculdade de Letras, tendo acesso a um pequeno olhar sobre o tempo onde, para além do próprio, ali ensinavam Lindley Cintra e David Mourão-Ferreira (dois professores que, para levaram porrada da policia nos anos 60 por defenderem as reivindicações dos alunos), onde dois alunos começaram um grupo de teatro que perdura até hoje (foi no anfiteatro 1, onde tantas vezes tive aulas, que Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo inauguraram a Cornucópia) e onde um jovem de 19 anos chamado Almeida Faria lançou Rumor Branco, um terramoto na literatura portuguesa dos anos 60. Para um sitio tão decadente, cheio de alunos com fome de fazer que lá não encontram o apoio necessário para se poderem transcender e criar algo de novo, vê-lo ali foi um pequeno olhar sobre outro tempo, onde realmente ali aconteciam coisas e cuja geração de lá saída, ao contrário daqueles como eu que trabalham em call centers, realmente acrescentou algo ao mundo para lá da Academia. Recordarei sempre esse momento, em si mesmo tão pouco importante.

A genialidade de Terry Eagleton

If I ruled the world

by Terry Eagleton / MAY 25, 2011 / 26 COMMENTS

Too many people just don’t know how to behave—or how to use words properly. Fines, jail and shoe-shining duty await them all

If I were chief executive of the cosmos, the following individuals would be abolished: Tom Cruise, Mel Gibson, Dick Cheney, Henry Kissinger, Tony Blair, Prince Andrew, Piers Morgan, the BBC’s Ben Brown for his nauseating right-wing bias in reporting a student demo, and Robert Kilroy-Silk (who seems to have abolished himself, thus saving the state the trouble and expense). Brief custodial sentences would be handed out to anyone caught using the following clichés: at the end of the day, over the moon, level playing field, no probs, going forward, pushing the envelope, in the wrong place at the wrong time, drawing a line and moving on.

A system of fines would be instituted for people who say “refute” when they mean “rebut,” “floor” when they mean “ground” and “literally” when they don’t mean literally at all. People who think the phrase “to beg the question” means “to raise the question,” or who think “fortuitous” means “felicitous,” will be issued with a police caution. The promiscuous use of the word “potentially,” as in: “He’s potentially a candidate for the job,” will get you placed under 24-hour surveillance. Prizes will be awarded to those still able to use the colon.

Kate Winslet will come to her senses and realise that she and I are soulmates. I will take her in only, however, if she promises there will be no more embarrassing displays of emotion at Oscar ceremonies. Peter Tatchell will be awarded a medal, equivalent in stature to the Victoria Cross, for his outstanding bravery.

A government inquiry would be tasked with establishing whether Donald Trump is real or fictional. Nick Griffin would be forced to become a shoeshine boy in Lagos, after a lengthy spell of latrine cleaning in Mumbai. Buckingham Palace would become a proper old people’s home, not the approximation to one it is at present.

The city of San Francisco would be moved to within 100 yards of my front door, as would Kate Winslet.

And the following categories of people would be either deported or offered as human sacrifices:

People who bump into you in the street because they are texting. People who spend an interminable amount of time getting into their aircraft seats, oblivious or indifferent to the fact that there are 75 passengers behind them, 20 of whom are out on the aircraft steps in the driving rain.

People who no longer even bother to pretend that they are not listening in on your conversation, and people at the next restaurant table who stare gormlessly at your food for several minutes when it arrives.

People who intone the words “I’m on the train” into a mobile phone the moment the train begins to move. Motorists who fail to indicate at a T-junction (that is everyone in the country except me). People who hold you up by taking their shoes off at airport security even though they are not required to do so. Everyone who for some unaccountable reason has failed to buy a copy of a remarkably cheap, extraordinarily attractive book entitled Why Marx Was Right.

Young people who are bubbly, vivacious, have loads of friends and a wonderful future ahead of them will be required to observe a curfew in the evenings, since the victims of serial killers are always described in these terms. (By some curious sociological law, miserable people never get murdered.) Anyone who is quiet, always has a polite word for his neighbours but keeps himself to himself will be taken instantly into police custody, since this is the way terrorists are invariably portrayed.

The truth is that shaggy, shabby, wild-eyed men sporting Kalashnikovs are completely harmless, rather as men who wear dirty raincoats are never sex maniacs. Terrorists are people who look just like you and me. So if you know anyone who fits this description, stop them immediately.

 

Comunicação? Onde?

JJ: “O Benfica está próximo de ganhar a hegemonia do futebol em Portugal.”

Mentira. Ponto um: entre a entrada de Pinto da Costa para presidente do Porto em 1982 até ao início da hegemonia do Porto no futebol português (que começou em 1995 com a criação da Liga de Clubes sediada no Porto e liderada de facto por Guilherme Aguiar), passaram-se doze anos e já dura há dezoito; pensar que se acaba com estes esquemas em 4 ou 5 anos é lirismo. Depois, porque quem viu a ultima jornada este ano, o Paços apático e depois vê o treinador e um jogador passarem para o Porto e este emprestar o estadio ao Paços para a Champions percebe que, se alguma coisa, a hegemonia está a aumentar. Por ultimo, porque é uma frase que ao primeiro empate rebenta na cara de quem a disse.

JEM: Quer dizer, na sua opinião o Benfica é a melhor equipa portuguesa!

JJ: Do meu ponto de vista, o melhor é sempre quem ganha, e quem ganhou foi o nosso rival, portanto eu não quero branquear as coisas.

Ponto um, em termos de futebol jogado, só quem tiver tido os olhos arrancados por uma catatua não viu que o Benfica foi melhor equipa. Em segundo lugar, em 20 anos de adepto de bola, nunca vi o Porto dar qualquer mérito ao Benfica: ou são os túneis, ou os jogos no Algarve (porque toda a gente sabe que o Porto nunca jogou com o Salgueiros e outros na Maia, onde dava jeito), ou os andores, ou o nariz do João Pinto que magoa o cotovelo do Paulinho Santos. E agora fazem isto e dão-lhes o valor que eles nunca nos dão. O meu maior motivo de desconfiança do Jesus é este: nunca ataca o Porto, mesmo quando lhe atiram isqueiros ou dizem que ficou com dinheiro de transferências, porque sabe que um dia será treinador do Porto.

Se no meio disto tudo alguém me explicar o que lá anda o Moniz, especialista em comunicação a fazer, agradeço.

 

“Una Giornata Particolare” (1977) de Ettore Scola

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Una giornata particolare é um filme que mostra grande mestria de Ettore Scola e dos seus argumentistas. Em primeiro lugar porque, sendo um filme eminentemente político e histórico, como o comprovam os largos minutos de newsreels da visita de Hitler a Roma no dia 8 de Maio de 1938, mostrando uma história baseada num tempo, fá-lo sem quaisquer discursos políticos e sem quaisquer encenações simbólicas. Pelo contrário, não só quando vemos os fascistas dirigirem-se para a parada o que vemos são os normalíssimos habitantes de um bairro vestidos com a indumentaria negra da praxe, como o habilíssimo travelling sobre os prédios e a eventual concentração na janela onde habita a personagem de Sofia Loren mostra que esta é uma historia dos efeitos da politica totalitária nas vidas comuns mais do que um qualquer panfleto. O que vemos, então, em sublime contraponto com a harmonia entre o Fuhrer e o Duce, são os efeitos nefastos que aqueles tempos provocam em Antonietta, dona de casa que é tratada como se não existisse pela ampla família e Gabrielle, homossexual excomungado por não representar os ideias patriarcais vigentes, num retrato de um fascismo quotidiano sufocante, com rádios aos berros deflagrando o relato das cerimonias militares e porteiras abelhudas que falam dos homossexuais como pervertidos. A intimidade tocante e, apesar do argumento superlativo, não particularmente verbal que nasce entre os personagens de Loren e Mastroianni (em papéis arriscados, ela despindo-se da sua beleza para mostrar uma dona de casa oprimida e ele arriscando a sua imagem de latin lover ao fazer de homossexual) nasce precisamente da incomodidade de cada um com o lugar que a sociedade lhes designou, ela o modelo da mulher latina que guarda um livro de recortes de Mussolini e que não vê a relação entre eles e o seu mal-estar e ele alguém que tem nos seus livros e na sua pintura abstracto traços da sua ausência de integração e de uma tendência inaceitável pelas autoridades para o formalismo. É a generosidade de Gabriele, que nem pestaneja quando o vão buscar para um exílio forçado, ao oferecer um livro à Antonietta que todos consideram estúpida e, sobretudo, ao oferecer-se a si mesmo numa das mais singulares cenas amorosas que já vi, um acto de amor repugnante para quem o oferece, que permitirá à personagem de Loren, quem sabe, contestar as ideias que a aprisionam. Porém, para já o livro tem de ser do século XVII e a leitura a única subversão; o presente e o futuro próximos ainda serão demasiado terríveis para qualquer acção mais prática.

Filme visualmente algo datado e produto do ultimo estertor dos estúdios da Cinecittà, com apenas 3 ou 4 cenários na totalidade, é um filme brilhantemente realizado por Ettore Scola, que através dos seus brilhantes movimentos de câmara  ultrapassa garbosamente os perigos do teatro filmado. Amplamente premiado em Itália, Una giornata particulare é, na sua qualidade formal e na recusa de uma solução fácil como seria a criação de um par romântico clássico, uma autentica relíquia que a RTP2 fez o obséquio de nos mostrar e que dá saudades de uma cinematografia que, nos tempos que correm, anda às costas de Nanni Moretti.

“Limbo” (1999) de John Sayles

Limbo

 

A tentar definir por que motivo John Sayles é tão ignorado no cinema americano contemporâneo, apostaria num factor sobre os outros: autor de filmes vincadamente políticos, nunca aposta num carácter panfletário sendo antes um exemplo de um cinema expositivo das condições de vida, das dificuldades e das transformações das sociedades que evoca. Filmes romanescos, expositivos, quase literários na construção dos seus argumentos e mais focados em personagens do que em enredos (o abrupto final demonstra um certo desprezo pela ideia de trama narrativa), creio que mais depressa se lhe perdoaria a denúncia inflamada e demagógica do que a denúncia tranquila e intimista das condições do capitalismo pós-industrial, extirpada de todo o sensacionalismo. É assim também em Limbo (1999), o filme que vi de Sayles que menos gostei até hoje, no seu retrato da comunidade do Alasca onde a maior parte dos seus cidadãos, longe das ideias de prosperidade da corrida aos recursos naturais do início do século XX, sobrevive como pode por entre expedientes e onde alguns querem fazer uma parque de diversões natural, uma espécie de Disney com ursos e árvores. O principal defeito de Limbo prende-se com a sua divisão abrupta em duas partes, a primeira mais expositiva, a segunda que ensaia, nem sempre de modo satisfatório, o confronto com o lado indomável da natureza e a construção de narrativas como mecanismo de sobrevivência, uma espécie de método Sherazade naturologista. Se os desempenhos de David Straitharn e de Mary Elizabeth Mastrantonio são tocantes e se a relação entre os dois ganha com o peso da bagagem sentimental que nem sempre é totalmente explicita, se Sayles filma divinamente quer as paisagens naturais quer a intimidade presente na cabana onde as três personagens principais se refugiam, há aqui dois filmes diferentes que nem sempre coabitam bem. É pena, pois ambos, se convenientemente desenvolvidos, teriam interesse de sobra isoladamente.

A avó Alice e o Benfica

A avó Alice faleceu às 23:45 de domingo. Durante o dia, foi com apreensão que eu e a Sandra, neta por via paterna, soubemos do seu estado terminal e de que dificilmente passaria daquele dia. Com os seus 91 anos menos dois meses, viveu o fim da Primeira República, a ascensão de Salazar, a Segunda Guerra Mundial, o Benfica bi-campeão europeu, o 25 de Abril, a entradade Portugal na CEE, a Expo 98, o 11 de Setembro e tudo mais nos entretantos. Sobreviveu a dois maridos; sobrevivem-lhe sete filhos, a mais velha das quais já com a bela idade de 71 anos. Sempre me tratou bem e tenho pena de a ter conhecido já mirradinha, quase sempre quieta, enrolada no roupão e pouco faladora – quando se chega a esta idade, deve-se perceber que só vale a pena falar quando se tem algo importante a dizer.

É por isso que não me orgulho de, durante o velório, terdesperdiçado duas horas em frente a um café manhoso na Amadora a aturar dois bêbados sportinguistas que a cada falta assinalada no meio-campo gritavam que o Benfica estava a ser levado ao colo e mais contentes com a prospectiva derrota do Benfica do que tristes com o Estoril lhes tirar a Europa, a ver o Benfica empatar e a, mais que provavelmente, deitar fora um campeonato que deveria estar mais do que conquistado. Pergunto-me até quando porei de lado ocasiões familiares, até quando estarei em jantares de amigos com o pc ao colo a ver jogos na net e até quando, nas ocasiões em que o Benfica joga e eu não estou a ver, me sentirei a dilacerar como se ácido sulfúrico me corresse nas veias.

Já não deve faltar muito. Duvido que aguente duas derrotas seguidas no jogo mais importante do campeonato e na final da Taça Uefa, que nos porão ao nível do Sporting de 2004-05 (e porem-me ao nível do Sporting é algo que não aceito). E aí pode ser que passe o meu tempo dedicado à bola em coisas mais importantes como a ler, ver bons filmes ou a ouvir bons discos. Ou então, a velar a avó Alice, que até era benfiquista, e que bem o merece.