Urbano

Nunca o conheci. Nunca tive aulas com ele, nunca o ouvi discorrer sobre nada nem sequer li algum livro dele. Mas lembro-me de uma vez estar a entrar na Faculdade de Letras e vê-lo, já idoso e mirrado, no átrio, com o ar sonhador de quem relembrava memórias passadas. Foi esse o único momento em que me senti realmente aluno da Faculdade de Letras, tendo acesso a um pequeno olhar sobre o tempo onde, para além do próprio, ali ensinavam Lindley Cintra e David Mourão-Ferreira (dois professores que, para levaram porrada da policia nos anos 60 por defenderem as reivindicações dos alunos), onde dois alunos começaram um grupo de teatro que perdura até hoje (foi no anfiteatro 1, onde tantas vezes tive aulas, que Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo inauguraram a Cornucópia) e onde um jovem de 19 anos chamado Almeida Faria lançou Rumor Branco, um terramoto na literatura portuguesa dos anos 60. Para um sitio tão decadente, cheio de alunos com fome de fazer que lá não encontram o apoio necessário para se poderem transcender e criar algo de novo, vê-lo ali foi um pequeno olhar sobre outro tempo, onde realmente ali aconteciam coisas e cuja geração de lá saída, ao contrário daqueles como eu que trabalham em call centers, realmente acrescentou algo ao mundo para lá da Academia. Recordarei sempre esse momento, em si mesmo tão pouco importante.

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