“Limbo” (1999) de John Sayles

Limbo

 

A tentar definir por que motivo John Sayles é tão ignorado no cinema americano contemporâneo, apostaria num factor sobre os outros: autor de filmes vincadamente políticos, nunca aposta num carácter panfletário sendo antes um exemplo de um cinema expositivo das condições de vida, das dificuldades e das transformações das sociedades que evoca. Filmes romanescos, expositivos, quase literários na construção dos seus argumentos e mais focados em personagens do que em enredos (o abrupto final demonstra um certo desprezo pela ideia de trama narrativa), creio que mais depressa se lhe perdoaria a denúncia inflamada e demagógica do que a denúncia tranquila e intimista das condições do capitalismo pós-industrial, extirpada de todo o sensacionalismo. É assim também em Limbo (1999), o filme que vi de Sayles que menos gostei até hoje, no seu retrato da comunidade do Alasca onde a maior parte dos seus cidadãos, longe das ideias de prosperidade da corrida aos recursos naturais do início do século XX, sobrevive como pode por entre expedientes e onde alguns querem fazer uma parque de diversões natural, uma espécie de Disney com ursos e árvores. O principal defeito de Limbo prende-se com a sua divisão abrupta em duas partes, a primeira mais expositiva, a segunda que ensaia, nem sempre de modo satisfatório, o confronto com o lado indomável da natureza e a construção de narrativas como mecanismo de sobrevivência, uma espécie de método Sherazade naturologista. Se os desempenhos de David Straitharn e de Mary Elizabeth Mastrantonio são tocantes e se a relação entre os dois ganha com o peso da bagagem sentimental que nem sempre é totalmente explicita, se Sayles filma divinamente quer as paisagens naturais quer a intimidade presente na cabana onde as três personagens principais se refugiam, há aqui dois filmes diferentes que nem sempre coabitam bem. É pena, pois ambos, se convenientemente desenvolvidos, teriam interesse de sobra isoladamente.

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