Némesis de Philip Roth: Porta de entrada, porta de saída

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(texto originalmente publicado no site Letra 1)

Apesar de haver obras mais meritórias na sua carreira, Némesis (2011, edição Dom Quixote) ficará para a história como o último romance de Philip Roth, numa auto-proclamada desistência digna de um dos seus protagonistas: dizendo que “o jogo está viciado”, o escritor desiste, pessimista, de tentar através dos seus livros compreender o mundo. Já não há ali espaço para auto-imolação ou para o último hurrah; as chagas têm de ser curadas em silêncio, longe dos holofotes do mundo literário e do ciclo de lançamento e promoção da página escrita.

Em bom rigor, Némesis pouco acrescenta ao quarteto de livros curtos iniciado com Todo o Mundo (2006) e que encontrou continuação nos outros sprints de Indignação (2008) e A Humilhação (2009, o primeiro o melhor da série, o terceiro o mais fraco, os outros dois esforços dignos). Continuamos, em primeiro lugar, em livros sobre a degradação (neste caso a doença, no surto de poliomielite que afectou a América na primeira metade dos anos 40 do século XX); o terreno é, à falta de melhor termo, o do “existencialismo judaico”, onde a culpabilidade é sempre inserida como algo de pessoal e de intrínseco, com protagonistas que sucumbem à realidade exterior, não conseguindo dar continuidade ao carácter estóico e resiliente dos seus modelos familiares e religiosos de conduta; a História, que Roth, por motivos geracionais, entende como a sucessão de eventos negativos que restringem a vida das pessoas, continua a entrar-lhes pela janela sem que estas o desejem; e permanecemos em Newark, que Roth descreve simultaneamente como o misticismo de um tempo que já não volta e se confunde com a nostalgia da infância bem como com o microcosmo da América, a cidade onde se pode encontrar exactamente o mesmo que em todas as outras e que serve de porto de abrigo para os judeus de primeira e segunda geração – comparando o incomparável, esta Newark entre o preto-e-branco e o sépia representa para a obra de Roth algo de tão fundamental quanto a imaginária cidade de Macondo para a obra de García Marquez.

O Bucky Cantor, jovem professor de Educação Física que não pode ir à guerra devido à sua miopia avançada e que é testemunha em primeira mão dos efeitos da poliomielite na comunidade e nos jovens que treina durante o Verão, é outra das figuras de Roth que vê o mundo como a série de tarefas desagradáveis (o rato que tem de matar à pazada na mercearia do avô) e de acontecimentos nefastos (a morte da mãe, o pai pelintra e ausente) que tem de aguentar da maneira mais séria possível, jamais fugindo à sua responsabilidade e enfrentando tudo de frente. Porém, é também ele que, vendo as crianças que conhece morrerem devido a uma doença que ninguém sabe como se propaga e como se cura, vai encetando um caminho de descrença que o leva, em algumas das páginas mais pungentes do romance, a questionar que tipo de Deus permitiria semelhante carnificina entre os seres mais impotentes. Reside aqui o fulcro do romance: como o escritor, também Bucky Cantor se encontra num jogo viciado, em que a sua honestidade e a sua capacidade mais não servem do que elementos decorativos, não permitindo mais do que a instalação de uma descrença quase ontológica, onde nem a presença de Deus chega a ser entrevista. Como o escritor, hoje vivendo pacatamente no seu apartamento em Nova Iorque, também Bucky Cantor abdica de viver, prosseguindo o seu caminho o mais discretamente possível, assumindo a sua derrota última e desistindo de tudo o que lhe poderia dar mais satisfação e felicidade.

E, sendo este o seu último romance, tudo acaba por ter lógica.Tanto na postura de Roth quanto na forma perfeita, na leitura fácil, na sensação de um livro que já conhecíamos, aos pedaços, de muitos outros dos seus livros e nas frases que se sucedem com facilidade, com uma velocidade de cruzeiro ideal e que contribui para a perfeição de um livro ao qual não se mudaria uma vírgula porque pura e simplesmente não há virgula que possa ser mudada. Como Manoel de Oliveira no cinema (esperamos ainda longe da reforma, fazendo filmes cada vez mais curtos e mais depurados), Philip Roth terminou a sua carreira num estado de depuração estética que lhe permitiu pôr de lado o fôlego e a extensão dos romances anteriores e dizer o mesmo com menos tempo e menor duração. Porta de saída mas também possível porta de entrada, Némesis é, para o bem e para o mal, o livro de um escritor cujo método e práticas se encontram cristalizados e que poderemos, a partir de agora, ver como uma totalidade, na certeza de que não será por isso que deixaremos de sentir falta do seu ritmo quase anual de edições e das suas frases coesas como poucas, geometricamente construídas e com momentos de beleza fulgurante. Por tudo isto, senhor Roth, mais do que adeus, um sentido obrigado por tudo.

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